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Publicado em 17/03/2014 às 14h57
O alçapão


RODRIGO ROMERO

A colocação de medalhões em histórias pode ser garantia das repercussões. Porém, a atitude nem sempre é certeza de que ocorram comentários positivos. Em 'Álbum de Família' (2013), além de Meryl Streep e Julia Roberts, temos Chris Cooper, Ewan McGregor e Juliette Lewis no cast. E Abigail Breslin, a ex-'Pequena Miss Sunshine' (2006), agora aos 17 anos, completa este time de atores. Sam Shepard entra como participante especial e, ainda assim, o longa-metragem dirigido por John Wells, baseado em trama e roteiro de Tracy Letts, não convence, empolga, emociona. Deixa bem a desejar.

'Álbum de Família' (mesmo nome duma peça de Nelson Rodrigues, aliás), cujo título original é 'August: Osage County', trata de uma média família que não se entende de jeito nenhum e, no fim das contas, entorna o caldo como se fosse o melhor dos dramalhões mexicanos, daqueles exibidos no SBT. Meryl é Violet. Mulher viciada em remédios, recém viúva, e tem câncer na boca e não se dá bem com ninguém, nem suas três filhas: Barbara (Julia), Ivy (Julianne Nicholson) e Karen (Juliette), e os respectivos parceiros Bill (McGregor), Charles (Benedict Cumberbatch) e Steve (Dermot Mulroney). Mattie (Margo Martindale, a mãe interesseira de Hillary Swank em 'Menina de Ouro', 2004) é a irmã de Violet, é casada com Charlie (Cooper). Todos se reúnem por conta da morte de Beverly (Shepard).

Sim, você deve ter assistido a algum filme com este enredo. Confusão em família costuma ser o pano de fundo a discussões, revelações, aborrecimentos e verdades jogadas na cara de todo mundo. E 'Álbum de Família' não foge à regra. Violet, por exemplo, é dona de um pavio curtíssimo e, afetada pelos comprimidos, despeja em quem estiver à sua frente o que lhe der na telha. Os diálogos ríspidos dão o tom da fita inteira. Ali não há concessões, carinhos. O casamento de Barbara e Bill está por um fio. Ivy é apaixonada por Charles, o primo... Karen é espevitada, solteirona, arranjou em Steve o caso.

Wells consegue dos atores o máximo de interpretações e peca precisamente neste exagero de trabalho. Nada tenho contra o blocked. Cumpre seu papel de ser muito espinhoso e familiar, apesar de rigorosamente idêntico aos demais do estilo, sem criatividade. A cena do jantar, logo após o enterro, é o símbolo da repetência. Faísca dali, faísca de cá, e então o bate-boca se inicia, o festival de insultos impera e o espectador fica estupefato. Até que Barbara se joga para cima da mãe tentando lhe tirar os remédios das mãos. E embora bem feita, a cena não persuade. Não sabia se estava vendo realmente a produção hollywoodiana ou se a 'Maria do Bairro' tinha mudado de endereço. Há esforço sem desejo.

Quando a Academia de Artes Cinematográficas divulgou os finalistas ao Oscar, no começo do ano, não estranhei a presença tanto de Julia como a de Meryl (obteve a 18ª indicação em 48 rodados, a incrível média de uma a cada quase 3 feitos! -contei aqui, claro, somente os longas-metragens, sem os trabalhos de dublagem, TV, curtas e médias). Não tinha visto 'Álbum de Família'. Assisti-o nestes dias atrás. Pelo menos a dupla saiu da cerimônia sem estatuetas. Soaram como 'obrigatórias' as duas atrizes serem indicadas. 'São Julia Roberts e Meryl Streep em uma película, então temos de deixá-las concorrer', deve ter sido o pensamento dos votantes. O peso dos nomes é fatal... Mas não mereciam.

Os demais atores até que se esforçam para tentar pelo menos chegar perto do embate Julia - Meryl. Em vão. Por mais que estejam bem (Cooper é um deles), não chegam nem perto da barra que é forçada pelas duas. Meryl se entrega ao personagem, como Julia. Tudo bem. 'Álbum de Família' é a prova de que são maravilhosas profissionais. Todavia, o contexto é outro, comum e batido, e com um final superclichê. Defino-o como 'falso filme bom'. Engana muito bem. De longe, sem chegar perto, a impressão é de que veremos uma espécie de 'Quem Tem Medo de Virginia Woolf?' (1966). Contudo, a armadilha está posta e quando nos aproximamos, o alçapão se abre e somos convidados a cair num poço de chororôs, vingancinhas, blábláblás. Desista. Parta para outra. Vá ver algum do Woody Allen.

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Rodrigo Romero é jornalista desde 2001. Passou por Diário de Jacareí, Diário de Mogi e assessoria de imprensa da Prefeitura Municipal de Jacareí. Em 2008 foi para a TV Câmara Jacareí, onde até hoje atua como apresentador e repórter. Escreve há quase dez anos, semanalmente, a coluna 'Coisas de Cinema' no Diário de Jacareí.


E-mail do autor: rodrigoromeropl@ig.com.br
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