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Publicado em 21/07/2014 às 10h26
Cobiça


RODRIGO ROMERO

'Dirigindo no Escuro' (2001) é um filme da fase pobre de Woody Allen. Este período vai de 96 a 2004, por aí, mais ou menos. E tratei da linha impactante da trajetória do diretor e roteirista neste espaço algumas vezes. Nestes quase dez anos, o cineasta viveu turbulências na profissão. A empresa que distribuía seus trabalhos mudou, a mídia ainda não conseguia engolir direito a sua separação da atriz Mia Farrow para ficar com a enteada. Não sei se por estas razões, a cabeça deve ter dado a pane, palavra tão na moda hoje em dia. Após 'Poderosa Afrodite' (1995), o teor de qualidade das fitas de W. Allen foi derrubado sem piedade. São deste ínterim longas-metragens como 'Poucas e Boas' (1999), 'Trapaceiros' (2000), 'Melinda e Melinda' (2004) e nosso tema da terça-feira, 'Dirigindo no Escuro'.

Allen é Val, diretor famoso em tempos idos, ganhador de dois Oscars, mas temperamental e chato para se lidar. Vive depois da fama de fazer comerciais desimportantes e busca redenção numa possível volta a Hollywood. Ela tem chance de ocorrer quando Ellie (Tea Leoni, 'Impacto Profundo', 1998), sua ex-esposa, teima em convidá-lo a dirigir a nova empreitada da Galaxy, produtora liderada pelo seu atual marido, Hal (Treat Williams, o pai de James Franco em '127 Horas', 2010). Claro que Val aceita, apesar de nunca ter digerido a troca da ex-companheira. Há uma cena hilariante em um restaurante, na qual ambos discutem o filme a ser feito e simultaneamente debatem os motivos que levaram à separação. É o mesmo personagem de sempre de Allen: atormentado, pessimista e doente.

No método alleniano de rodar suas películas, à base de muito improviso, sem quaisquer tipos de ensaios, algo às vezes tende a não sair como o esperado. Em 'Dirigindo no Escuro' isto é notado. A falta de esmero com o próprio blocked, parte tão detalhada e aplaudida dos trabalhos do cineasta, aqui são percebidos a cada instante. Woody Allen apela a malabarismos físicos à Chaplin e sequências de teor praticamente infantil, nada crível em determinadas cenas. O título do filme em português, aliás, denuncia demais a história. Isto porque Val, ao topar o desafio de Ellie, fica tão nervoso e ansioso pra iniciar filmagens que tem uma cegueira psicossomática, ou seja, passa a não enxergar de puro e belo problema psicológico. O título original, 'Hollywood Ending' (algo como 'O Fim Hollywoodiano), pode ligeiramente explicar melhor os bastidores da trama. Desta vez todos erraram. Woody Allen também.

Como nos demais, as personagens femininas dão o tom protagonista. Além de Ellie, temos a Lori (Debra Messing, de 'A Última Profecia', 2002), namorada de Val, espevitada e aspirante a atriz. A chance dela, como de Val, é no filme de Hal e Ellie. Neste ponto, Allen faz o que sabe melhor: tirar sarro da profissão, especialmente daqueles que são ridicularizados, como as modelos lindas e com a cabeça vazia. Fechada a calças a vácuo, Lori 'conquista' a vaga e, em outra cena de risadas, agradece ao amado quando Val está com Ellie. George Hamilton, um dos astros dos anos 1950 e 1960, compõe o cast de 'Dirigindo no Escuro'. Ele é Ed, como ele mesmo comenta, o assessor dos sets, responsável por mimar os astros que ali frequentam, espalhar fofocas e intrigas nascidas pelos cantos do cenário.

Apesar de abrir o Festival de Cannes de 2002, 'Dirigindo no Escuro' não é um bom filme, dos tantos ótimos de Woody Allen. Tal qual 'Todos Dizem Eu te Amo' (1996), o pretenso musical de igual qualidade (ou pior), a fita do cego à frente duma realização, além de ser inverossímil no pior sentido da palavra, soa como deboche fraco. Allen só recuperaria o fôlego em 2005, quando escreveu 'Match Point: Ponto Final', e arrastou corações com a então nova musa Scarlett Johansson. O cineasta ainda derraparia com 'O Sonho de Cassandra' (2007) e 'Tudo Pode Dar Certo' (2009), mas voltaria ao topo com 'Meia-Noite em Paris' (2011) e 'Blue Jasmine' (2013). As idas e vindas não costumavam ser tão comuns a ele, que completará 80 anos em dezembro de 2015. A quem comandou ouros como 'Noivo Neurótico, Noiva Nervosa' (1977) e 'Manhattan' (1979), os fãs sempre esperam sempre mais e mais.

 
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Rodrigo Romero é jornalista desde 2001. Passou por Diário de Jacareí, Diário de Mogi e assessoria de imprensa da Prefeitura Municipal de Jacareí. Em 2008 foi para a TV Câmara Jacareí, onde até hoje atua como apresentador e repórter. Escreve há quase dez anos, semanalmente, a coluna 'Coisas de Cinema' no Diário de Jacareí.


E-mail do autor: rodrigoromeropl@ig.com.br
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