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Publicado em 05/05/2014 às 15h17
O cinema na pele


RODRIGO ROMERO

Já escrevi neste espaço diversas vezes acerca da capacidade de atores e atrizes em pegar seus corpos e transformá-los em máquinas de atuação. As alterações físicas que alguns se permitem são as mais impressionantes possíveis. Tom Hanks que o diga. Quem o viu em 'Náufrago' (2000) assustou-se com as mudanças de peso. No início da trama estava gordo. Largado em uma ilha, fez tratamento para emagrecer de maneira espantosa. Em 'Filadélfia' (93) ocorreu algo parecido com ele, ao dar vida a um soropositivo em estágio terminal. Mais recentemente, Christian Bale teve de ficar rechonchudo a interpretar Irving Rosenfeld em 'Trapaça' (12). Pouco tempo antes era osso puro em 'O Vencedor' (2010). Entretanto, nada chocou tanto nos últimos tempos como Matthew McConaughey em 'Clube de Compras Dallas' (2013). O Oscar de melhor ator era óbvio, ainda que Bruce Dern, por 'Nebraska' (2013) estivesse ótimo também. McConaughey é Ron Woodroof, machista ao extremo que leva a sua vida da forma mais promíscua possível, e que se vê às voltas com um tiro fatal: descobre ser portador do vírus HIV, em plenos anos 1980, quando a doença tinha a fama de ser 'de homossexual' e mortal.

'Clube de Compras Dallas' aborda a desesperança de um homem avesso ao seu tempo e com a revolta embutida em sua alma. No primeiro momento, aceitar a enfermidade é algo fora do normal a Woodroof. Mesmo com a ajuda e o amparo da prestativa enfermeira Eve (Jennifer Garner), o caubói é teimoso e insistente. O médico lhe deu poucas semanas de vida e a alternativa encontrada é achar o remédio certo. Trinta anos atrás, experimentos com o AZT, droga que poderia excluir ou pelo menos diminuir a quantidade do vírus no corpo dos doentes, eram escassos, desinformados. Ao saber disso, Woodroof (a história é baseada em fatos reais) começa a jornadear em busca desta solução. É assim que nasce, em 1986, o contrabando de remédios, que vêm do México. A briga de Woodroof é contra a indústria farmacêutica e o texano eletricista deseja se ver livre da Aids. Em determinado instante, as organizações dele são tamanhas que centenas de outras vítimas começam a procurá-lo, pois sabe que ele é o Messias que pode devolver vida aos apontados com a morte certa. Até Eve entra no meio. Ela vira parceria (como amiga) de Woodroof pra todas as horas. Auxilia-o nesta aventura muito perigosa.

O canadense Jean-Marc Vallée é o diretor e estreia em cenário hollywoodiano com esta obra. Nota-se um bom comando de atores ali, porém McConaughey parece estar em transe. Vários quilos mais magro, com um bigode irreconhecível e chapéu de cavaleiro, o ator incorporou Ron Woodroof de modo espetacular. O verdadeiro Woodroof morreu em 1992, aos 42 anos, seis anos após aquele tal diagnóstico que lhe deu semanas de vida. Em meados dos anos 80, é bom sempre recordar, os EUA eram governados pelo também ator e ex-governador Ronald Regan, cujo mandato foi de 1981 a 1989, pelo Partido Republicano. A política severa, dura e determinadas vezes racista de Regan foi um dos motivos pelos quais o protagonista de 'Clube de Compras Dallas' lutou contra. Neste ritmo, em 1988 Woodroof inaugurou a sociedade de venda dos medicamentos, conseguiu arrecadar dólares e tornou-se, assim, reconhecido nacionalmente, a partir do Texas, claro. Certa vez declarou: 'Sou meu próprio remédio'. As atitudes polêmicas e desbocadas dele tinham fundamento e razão. O eletricista sabia ter pouquíssimo tempo de vida e arrebanhou seus adeptos, além de conseguir estender a sua existência.

Brilha ainda na trama o músico e ator Jared Leto, o papel do travesti Rayon. A personagem é, ao lado de Eve, companheira de Ron na jornada incrédula em busca da salvação. Leto foi tão forte e a interpretação foi tão esplendorosa que ele também foi agraciado com o Oscar, mas de coadjuvante. O filme ainda recebeu a estatueta de maquiagem e concorreu a melhor filme, edição e roteiro original. McConaughey e J. Leto já haviam sido galardoados anteriormente com o Globo de Ouro nas mesmas categorias. Belo e raro trabalho de dois atores num mesmo longa. Eu recomendo vivamente esta fita.

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Rodrigo Romero é jornalista desde 2001. Passou por Diário de Jacareí, Diário de Mogi e assessoria de imprensa da Prefeitura Municipal de Jacareí. Em 2008 foi para a TV Câmara Jacareí, onde até hoje atua como apresentador e repórter. Escreve há quase dez anos, semanalmente, a coluna 'Coisas de Cinema' no Diário de Jacareí.


E-mail do autor: rodrigoromeropl@ig.com.br
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