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Publicado em 28/02/2020 às 13h46
Goodbye Coffin Joe


RODRIGO ROMERO

O Brasil fez com Zé do Caixão, morto há 10 dias aos 83 anos, o que ama fazer com alguns de seus ídolos mais talentosos: jogou-o ao ostracismo, ao limbo, às traças.

Não só - praticou o esporte predileto de determinados segmentos pseudointelectuais: ridicularizou-o e deturpou a imagem do talvez maior cineasta do país, ladeado por nomes do calibre de Adhemar Gonzaga, Mário Peixoto, Amácio Mazzaropi, Anselmo Duarte e afins.

O regime militar (1964-1985) contribuiu e censurou e proibiu seus filmes, ao considerá-los amorais, subversivos e de mau gosto. Na época, ainda iniciava em terras tupiniquins o maciço domínio do chamado Marxismo Cultural, livremente solto pelos milicos que nada sabiam do setor e relegaram à turma vermelha tal tarefa, assim como na Educação.

José Mojica Marins teve infância semelhante à de Totó, de 'Cinema Paradiso' (1988): via filmes no cinema em que o pai trabalhava. Era aficionado por gibis. Criou o personagem que marcou a sua trajetória no fim de 1963, cujo nome 'de batismo' era Josefel Zanatas ('fel' por ser amargo e Zanatas por lembrar 'Satanás', segundo palavras do próprio Mojica).

No ano seguinte, com 'À Meia-Noite Levarei a sua Alma' veio a fama. E com ela os entraves. Perseguido e constrangido, nas décadas de 1970 e 80, à procura de dinheiro, se submeteu aos longas-metragens de pornochanchadas, e escondeu a vergonha onde pode. 

O jornal 'Notícias Populares' e o programa 'Viva à Noite' exploraram a faceta cômica, as unhas gigantes, e Mojica, como Zé do Caixão, constantemente era convidado para algum quadro hilariante. Mais uma subalternidade.

Tudo se transformou nos anos 90. Jovens cinéfilos dos EUA descobriram o seu trabalho e lançaram suas fitas por lá. Chamado a visitar o Tio Sam, viu a consagração retornar aos 55 anos, agora como Coffin Joe, venerado no estrangeiro.

Aí, claro, o Brasil o observou com outros olhos. Não 'voltou americanizado' como Carmen Miranda, mas vingado. Tornou-se figura cult, aplaudido por adolescentes os cinéfilos da nova geração.

Apresentador de programas no Canal Brasil, conseguiu em 2008 completar a trilogia de Zé do Caixão, depois de 'À Meia-Noite Levarei a sua Alma' e 'Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver' (1967).

Em seus últimos anos, doente e de novo esquecido, deixou-se levar. Deveria ter se mudado aos EUA e certamente receberia muitas mais homenagens do que teve por aqui após a sua morte. Coffin Joe merecia melhor sorte. Porém, Brasil é Brasil. Fazer o quê?

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Rodrigo Romero é jornalista desde 2001. Passou por Diário de Jacareí, Diário de Mogi e assessoria de imprensa da Prefeitura Municipal de Jacareí. Em 2008 foi para a TV Câmara Jacareí, onde até hoje atua como apresentador e repórter. Escreve há quase dez anos, semanalmente, a coluna 'Coisas de Cinema' no Diário de Jacareí.


E-mail do autor: rodrigoromeropl@ig.com.br
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