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Publicado em 25/08/2014 às 14h19
Glauber, sempre


RODRIGO ROMERO

'O imperialismo americano acabará com o cinema nacional'. 'Não podemos nos vender para o capitalismo selvagem'. 'A imagem, rigorosamente, deve ser o vocábulo, o cineasta deve escrever com imagens'. 'As pessoas pensam que eu estou louco, mas estou é muito certo'. Estas são frases ditas por um dos maiores nomes - senão o maior - do cinema brasileiro. Glauber Rocha nos deixou há exatos 33 anos, dia 22 de agosto de 1981, porém os seus pensamentos e revoluções particulares insistem em povoar as nossas cabeças. Ainda bem. Ao observar o ecrã verde e amarelo com lupas grossas, todavia, a tal imagem, hoje, não é nada boa. Se algum realizador desejar aparecer em diversas salas país afora deve, desgraçadamente, fazer o seu pacto com o demônio e este atende pelo nome de... Globo Filmes.

No excepcional documentário 'Glauber Rocha: Labirinto do Brasil' (2004), de Silvio Tendler, o ex-cineasta e atual articulista de jornal Arnaldo Jabor, ao se referir ao diretor e roteirista da Bahia, teceu: 'Ele morreu numa mistura de herói com otário'. Vejamos. No fim dos anos 1970 e meses antes de falecer, Glauber era odiado por todas as frentes. Direita, esquerda, católicos, ateus, protestantes, o mundo, queria-o pelas costas. Vinha do insucesso de 'A Idade da Terra' (1980) no Festival de Veneza, onde o filme não era entendido por ninguém. Estava sem dinheiro. Quebrado, tentou tudo. Mesmo, e isto é sabido por poucos, uma parceria com a Rede Globo, alvo de tantas surras glauberianas, pra uns blockeds de programas especiais. Em vão. Na sarjeta, e, claro, não por este motivo, enfermou-se. A tal bactéria que fez seu organismo implodir. Na verdade, como disse alguém que não me recordo agora, 'ele morreu de Brasil'. Evidente. Nos variados brasis do cineasta, o pior se entranhou em seu corpo.

Glauber defendia mostrar o Brasil aos brasileiros e ao planeta. No seu portfólio estão as cenas inesquecíveis do sertão. Ele as pintou com maestria e a estética da fome foi vista e revista. Hoje, nós temos o quê? Artistas subservientes, empresas endinheiradas e 'O Capital' jogado às traças. Vejam, é o exemplo que sempre exponho, as programações dos cinemas. Quando não são blockbusters - fitas cujo protagonista é o efeito especial e o espectador pouco ou nada exigente baba por ele e se refere ao show como espetáculo da sétima arte - são as bobeiras tupiniquins com os profissionais com zero de talento, graça e carisma. E esta pergunta soa tola, teimosa: e onde estão os novos Eduardo Coutinho, Nelson Pereira dos Santos, Cacá Diegues, Luiz Sérgio Person? Se nós perguntarmos aos adolescentes quem são estas pessoas, a porcentagem de acerto será menor do que 5%. Eu aposto e sei que venço...

A 'mistura de herói com otário' dita por Jabor é inglória. Glauber não demonstrava heroísmo em seus trabalhos. Pelo contrário. O desejo era detonar os conceitos e preconceitos no círculo vicioso da pobreza e da miséria. E jamais foi otário no sentido de ingênuo ou inseguro. Se ele tinha a utopia das utopias era porque acreditava piamente. No enterro de Glauber, Darcy Ribeiro confessou: 'Teve um dia em que Glauber passou o dia todo chorando. Ele chorava a miséria, estupidez, mediocridade. Ficamos abraçados e chorando'. Esta sensibilidade à flor da pele fez do cineasta uma lenda, um mito.

Nestes mais de 30 anos sem o cineasta, o cinema brasileiro galopa rumo à ninharia. São raras exceções hoje em dia. Os festivais nacionais, como o de Paulínia, dão fôlego a uma produção cada vez mais no ritmo daquele trabalhador interpretado por Chaplin em 'Tempos Modernos' (36). Pior: com a qualidade rasa, para não dizer tosca. No fim das contas, e todos sabem disto, Glauber estava certo. As suas vãs filosofias se mostraram corretas e nós, seus admiradores, temos de nos curvar. Ao invés do herói e otário jaboriano, o líder de 'Terra em Transe' (1967), o eterno Antônio das Mortes de 'Deus e o Diabo na Terra do Sol' (1964) e 'O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro' (1969), era, sim, um gladiador contra a seca e o prato vazio. A simplicidade deveria contagiar. A alguns, teve o êxito.

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Rodrigo Romero é jornalista desde 2001. Passou por Diário de Jacareí, Diário de Mogi e assessoria de imprensa da Prefeitura Municipal de Jacareí. Em 2008 foi para a TV Câmara Jacareí, onde até hoje atua como apresentador e repórter. Escreve há quase dez anos, semanalmente, a coluna 'Coisas de Cinema' no Diário de Jacareí.


E-mail do autor: rodrigoromeropl@ig.com.br
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