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Publicado em 24/02/2014 às 15h43
Dúvidas e Acertos


RODRIGO ROMERO

Ao ver 'Gravidade' (2013) pensei: é o melhor filme da temporada. Então, dias atrás vi 'Ela'. E agora estou em dúvida. Afirmar ser a fita a obra-cabeça é um erro. Spike Jonze, o diretor, rodou dois destes em sequência há alguns anos: 'Quero Ser John Malkovich' (1999) e 'Adaptação' (2002). 'Onde Vivem os Monstros' (2009), outro trabalho seu, também é nesta linha, mas nem tanto. Este 'Ela', que Jonze inclusive roteirizou, pode-se dizer ser uma divisão no tema. Há, claro, as histórias dos futuros, com sistemas revolucionários, carros voadores... 'Metrópolis' (1927), de Fritz Lang, tem este sal, e de certo modo igualmente angariou discussões, perturbações, rixas, debates. Apavorei-me ao ver 'Ela'. A trama é perfeitamente palpável. Os fatos exibidos ali acontecerão mais dia, menos dia, se é que já não acontecem. Seremos todos Theodore, personagem espantosamente bem feito por Joaquin Phoenix?

O Theodore em questão tem emprego similar ao de Dora -Fernanda Montenegro-em 'Central do Brasil' (1998): é escrevedor de cartas. Isto, todavia, nas últimas décadas do século 21. Totalmente digitalizado, o sistema das epístolas funciona pela voz e agrega sentimentos às mensagens, a maioria delas de amor. Seu trabalho é nada estafante, porém, solitário -na vida pessoal, está se separando da esposa Catherine (a atriz Rooney Mara, irreconhecível na pele de 'mulher normal' após 'Os Homens que não Amavam as Mulheres', 2011). De repente, o moço vai a um lançamento: sistema operacional praticamente humano. Adquire-o. Logo no primeiro contato entre ambos, a simpatia do computador o seduz: a voz é de ninguém menos do que Scarlett Johansson e tem nome, Samantha. Passo a passo, Samantha e Theodore começam a se relacionar. A paixão do século 21 posta à prova. À nossa prova. Existe ainda Amy (Amy Adams), a melhor amiga do protagonista. Eles se gostam, mas são distantes.

'Ela' discute a tecnologia a (des) serviço do homem moderno. Até que ponto ela atrapalha ou ajuda? Os limites da independência do homem estão ameaçados por conta dos computadores? Estas e outras questões são distribuídas aos espectadores e eles, o público, decide qual caminho trilhar. As páginas do blocked deixam claro a opção de Jonze: escolha a informática, porém, faça dela sua parceira e não sua dona. Isto pode soar um enorme clichê e é. Entretanto, o diretor nos espanta do modo que nos mostra a resposta. Phoenix está soberbo em cena. Assim como Tom Hanks em 'Capitão Phillips' (2013), sua indicação ao Oscar de ator era obrigatória e foi por terra. Injusto. Comparo o trabalho de Phoenix e dois outros seus: o fotógrafo com distúrbios Freddie, de 'O Mestre' (2012) e Johnny Cash, de 'Johnny & June' (05). Um pouco atrás está o maníaco Commodus, de 'Gladiador' (2000). Depois de se aventurar em filmes discutíveis, como 'Sinais' (2002) e 'A Vila' (2004), ele parece ter se achado.

Theodore se comunica com Samantha por meio de um ponto eletrônico. A 'moça' o auxilia e organiza agenda, por exemplo. Leva-a a passeios com amigos. Num momento impactante do longa, Samantha sugere ao parceiro uma relação sexual. A tanto, contata uma mulher pra ir ao apartamento dele, e ela, mulher real, não pode falar, demonstrar nada (também guiada pelo sistema operacional). Mais um ponto positivo é o cenário. O lugar onde Theodore mora é repleto de amplas janelas, vidros grandes e deles se vê a cidade imensa. Há espaço e a movimentação dos personagens é facilitada pela 'solidão' da ausência de móveis. A película, além de filme, roteiro original, foi finalista nas categorias trilha sonora, canção original ('O Som da Lua', cantada por Scarlett Johansson e Joaquin Phoenix) e a direção de arte. A sua maior chance está exatamente nas partes musicais, e sobretudo na de canção.

'Ela' é o '1984' do século 21. Nós somos condenados a eternamente tentarmos nos esconder e nunca conseguir. Interatividade à flor da pele, vide o jogo de videogame de Theodore: o boneco fala e se comunica com o dono toda vez, e lhe dá broncas homéricas. Xinga-o. O protagonista ri. No fim, de fato, quem rirá por último? A dúvida de Jonze é imposta a todos nós, seres humanos, computadores.

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Rodrigo Romero é jornalista desde 2001. Passou por Diário de Jacareí, Diário de Mogi e assessoria de imprensa da Prefeitura Municipal de Jacareí. Em 2008 foi para a TV Câmara Jacareí, onde até hoje atua como apresentador e repórter. Escreve há quase dez anos, semanalmente, a coluna 'Coisas de Cinema' no Diário de Jacareí.


E-mail do autor: rodrigoromeropl@ig.com.br
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