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Publicado em 10/02/2014 às 11h25
De novo e de novo


RODRIGO ROMERO

Determinados filmes certos personagens tomam conta do ambiente e você olharia para ele o tempo todo, sem sequer notar a passagem dos minutos e horas. Assim é com Liesel (Sophie Nélisse), a protagonista de 'A Menina que Roubava Livros', lançado alguns dias atrás por aqui. A história, uma adaptação do best seller escrito pelo australiano Markus Zusak, se passa na Alemanha dos anos 1930 e 1940, auge do período nazista, com gélidas e pálidas manhãs e noites. A mãe de Liesel, judia, deixa-a para que não sofra encalços. A garota é adotada pelo casal Rosa e Hans (Emily Watson e Geoffrey Rush, ambos sinceros em cena) e passa a viver com eles em uma vilazinha. Liesel fica amiga de Rudy (Nico Liersh), da mesma idade e que ama futebol. Com o passar dos dias, Hans descobre que a garota tem dificuldade para ler e ensina-a caminhos da liberdade: livros. Então surge Max (Ben Schnetzer), judeu e foragido, e a família o acolhe. Muito ferido, é Liesel quem o ampara e lê-lhe peças literárias.

A fita empolga pouco. Porém, comove. Não li a obra de Zusak, mas as pessoas que a leram me disseram que o longa deixa bastante a desejar. Há cenas tenras. Um exemplo é a que Liesel começa a narrar uma trama aos vizinhos. Eles estão num porão enquanto bombas da guerra estouram do lado de fora. O desespero é tamanho que os ouvintes insistem para que ela siga a descrição. Noutra, Max lhe pede para que desenhe na imaginação o dia que ele, trancado no sótão como foragido, não tem a chance de olhar. 'A Menina que Roubava Livros' tem clichês clássicos de todos os filmes repletos dos nazistas: maldade, violência, olhar torto, medo, porões, suástica, cantos orfeônicos, mãos estendidas, ódio extremo a Adolf Hitler etc. O romancezinho platônico entre Liesel e Rudy, mais ou menos quase Liesel e Max, igualmente platônico, não impressiona sobremodo. B. Percival trabalhou mal o blocked e o resultado foi como se engasgássemos durante uma sopa. Conseguimos engolir pouco ou nada dele.

Na festa do Oscar deste ano, a trilha sonora concorre. O responsável? John Williams, claro. O compositor é detentor de cerca de 30 indicações da Academia. Das mais famosas, 'Star Wars: Guerra nas Estrelas' (1977), 'Superman: O Filme' (1978) e 'Tubarão' (1975) são as preferidas e as lembradas pelo público. Baseada no piano, a música de fundo compõe o longa-metragem com satisfação. Fora a trilha, realmente não merecia quaisquer outras indicações. O título da obra é resumido em somente uma cena, pois Liesel surge na telona roubando livro uma vez só, na casa do prefeito, e levando até o amigo Max. Sobre este, nada se sabe. Chega à casa de Hans cambaleando. Levou um tiro? Apanhou? Tomou veneno? Tem labirintite, vertigem? Não há explicação. E de igual modo que entrou, ele numa certa madrugada resolve partir sem dar mais detalhes. Vai fazer o quê? Batalhar na Segunda Guerra Mundial? Voltar à terra natal? Procurar seus parentes? Visitar amigos no botequim? Fugir das tropas SS e SA? E entre idas e vindas, o público passa por tapado, indigente. O silêncio, desta vez, prejudica.

'A Menina que Roubava Livros' certamente não será lembrado como filme, mas como o livro acerca de uma guria que queria amparar um refugiado dando-lhe e falando-lhe as páginas de obras e histórias variadas. Adaptar livro pra o cinema é tarefa árdua e de múltiplos desafios. 'Lolita', do russo Vladimir Nabokov, é o caso de exceção. Tanto o alfarrábio como suas duas adaptações às telonas são dignos de nota. Publicado originalmente em 1955, teve sete anos depois a trama transportada para as salas de cinema, magistralmente comandada por Stanley Kubrick. Vinte e cinco anos depois, Adrian Lyne repetiu a realização de Kubrick e lançou uma fita tão linear quanto. Se no primeiro teve atores e atrizes fortes, como James Mason, Peter Sellers, Shelley Winters, no segundo Jeremy Irons, Melanie Griffith, Frank Langella e Dominique Swan aguentaram e suportaram a responsabilidade. 'A Menina que Roubava Livros' nada acrescentou às carreiras de Rush e Emily, todavia revelou Sophie, a meiga.

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Rodrigo Romero é jornalista desde 2001. Passou por Diário de Jacareí, Diário de Mogi e assessoria de imprensa da Prefeitura Municipal de Jacareí. Em 2008 foi para a TV Câmara Jacareí, onde até hoje atua como apresentador e repórter. Escreve há quase dez anos, semanalmente, a coluna 'Coisas de Cinema' no Diário de Jacareí.


E-mail do autor: rodrigoromeropl@ig.com.br
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