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Publicado em 25/10/2019 às 14h24
Bonecos de Madeira


JOSÉ LUIZ BEDNARSKI

Algumas histórias nunca saem de moda e são capazes de emocionar crianças de diferentes gerações. É o caso do livro As Aventuras de Pinóquio, escrito pelo jornalista italiano Carlo Collodi, na penúltima década do Século XIX.

O boneco de madeira foi criado com tanto enlevo pelo velho marceneiro, que a fada-madrinha lhe deu vida. Contudo, embora parecesse uma criança, tivesse um lar acolhedor e um pai amoroso, na família faltava a figura materna e o artesão passava muito tempo distanciado pelo trabalho.

Pinóquio não era um ser humano de verdade. Da evasão escolar, avançou a uma rotina ociosa, mendaz e viciosa. Como consequência, sofreu violência nas ruas. Corroeu sua dignidade, arriscou a própria salvaguarda e a vida do único familiar que tinha.

Quando sua consciência apontou os primeiros sinais de remorso, a fada-madrinha veio lhe socorrer. Entretanto, essa ajuda não foi solidamente eficaz. O títere voltou a incidir nos erros, pois carecia de formação moral e firme propósito de mudar de vida.

Somente quando ao auxílio da fada se ajuntaram os esforços paternos para efetivamente se inserir na realidade do bonifrate e entendê-la é que se operou a transformação do personagem em verdadeiro ser humano, notável metáfora a servir de lição formadora a todos os pequeninos.

Lastimavelmente, a realidade de boa parte dos jovens brasileiros de origem humilde continua a ser de fantoche de pau. Até o advento do Bolsa Família, existiam menores de rua, crianças abandonadas, trombadinhas e pivetes dos becos.

Hoje, duvidosa melhora... A criança só não é abandonada porque cada qual vale acréscimo monetário no cartão do benefício. Não precisa se expor à sirte como assaltante, mas está relegada à mesma rotina de desocupação e desvirtuamento, exposta à crueldade das ruas, desta feita como aviãozinho do tráfico de drogas e alvo de pedofilia.

O jovem carente quer trabalhar, conquistar paulatina autonomia e crescer na vida, mas as exigências oníricas da Constituição asfixiaram as formas mais viáveis de profissionalização honrosa. 

Atados os adolescentes na redoma da caridade, por enquanto venceram os burocratas. Mínguam as guardas mirins, desnaturadas de seu modelo militar original. Elas precisam voltar.

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Coluna assinada pelo Promotor de Justiça da Cidadania, José Luiz Bednarski. Uma abordagem apartidária, com discussão aberta dos assuntos de interesse geral; o amadurecimento paulatino da cidadania, a força da população em diálogo com órgãos independentes representativos, como MP, Defensoria Pública e outras instituições criadas ou fortalecidas a partir daConstituição de 1988.


E-mail do autor: joseluizbednarski@gmail.com
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