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Publicado em 31/07/2020 às 14h19
A negociação do delírio


RODRIGO ROMERO

Ingmar Bergman não me larga. Ou vice-versa. Ao assistir a 'A Hora do Lobo' (1968) fiquei abismado e em choque. Impressionou-me sobremaneira o modo de como o diretor tem a consciência do onirismo em seu trabalho e especificamente aqui o espelho de sua obra impacta o espectador.

Em 1968, o sueco já tinha mais de 20 anos de estrada e conseguiu convencer a sua musa Liv Ullmann - que estava grávida dele - a filmar uma história meio macabra. O roteiro original ela recusou. Bergman, então, manobrou as linhas e deturpou a trama, deixando-a 5% mais leve. Liv, então, topou.

'A Hora do Lobo' trata de um pintor introspectivo e difícil, Johan (Max von Sydow, que 5 anos depois estrelaria 'O Exorcista'), e sua esposa, Alma (Liv). Desde o início da fita sabemos que a abordagem é encenada, reconstituição de um caso tenebroso, onírico. Alma 'conta' para o diretor que o marido a abandonou, deixando-a grávida de 8 meses, sem esperança e expectativa. Aí entramos no blocked.

Johan tem alguns medos complicados de se decifrar, e a insônia o perturba a cada dia. Para ele, dormir à noite é perigoso, principalmente na tal 'hora do lobo', momento crucial onde muitas pessoas morrem, mas também outras tantas nascem. As aparições de figuras estranhas no decorrer do longa - a criança na pescaria, que o morde; a idosa que destroça o próprio rosto; vizinhos de comportamento no mínimo insólito etc - são parte dos pesadelos do pintor ou há um complô para deixá-lo atordoado, ou assassiná-lo?

Alma contribui a tudo isso ou é só uma vítima? Bergman usa ingredientes comuns em suas fitas - solidão, ausência da religiosidade, o ocaso da existência, paranoia - e dá um banho de direção, fotografia e roteiro. O depoimento final de Alma é o estopim para muitas conclusões...

Afinal de contas, ficamos sempre parecidos com os nossos companheiros? Chegamos a ter inclusive demências semelhantes? Pode ser que sim. Pode ser que não. O que você, aí do outro lado, acha? A bela Ingrid Thulin ('Morangos Silvestres', 1957), está no elenco. Caso não se remexa com a fita, o errado é você, não a fita. Duração: 83 minutos. Cotação: excelente.

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Rodrigo Romero é jornalista desde 2001. Passou por Diário de Jacareí, Diário de Mogi e assessoria de imprensa da Prefeitura Municipal de Jacareí. Em 2008 foi para a TV Câmara Jacareí, onde até hoje atua como apresentador e repórter. Escreve há quase dez anos, semanalmente, a coluna 'Coisas de Cinema' no Diário de Jacareí.


E-mail do autor: rodrigoromeropl@ig.com.br
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