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Publicado em 13/05/2016 às 11h56
O promotor que quis ser árvore


JOSÉ LUIZ BEDNARSKI

Poucos promotores de Justiça ousaram permanecer tanto tempo no mesmo cargo quanto Nelson Garcia Rosado. A titularidade gera um desgaste constante e a maioria prefere respirar novos ares, de tempos em tempos. Contam-se nos dedos de uma mão (talvez a do Lula) os que ousaram ultrapassar o patamar de inamovibilidade do nosso querido Dr. Nelson. Um exemplo marcante foi Alcides Fidélis, promotor público de Ilha Longa por 42 anos.    Ingressou no cargo ainda jovenzinho peralvilho, pouco antes do suicídio de Vargas, e no mesmo gabinete permaneceu até se aposentar, depois da criação do celular tijolão de tela verde e da volta do fusca, no governo Itamar.

Em seguida, Alcides comprou um veleiro e abraçou de vez o estilo caiçara, dedicando-se com afinco à pesca em alto-mar. Para as longas jornadas, levava seu livro preferido - O Velho e O Mar, de Hemingway - e de lá só voltava depois de fisgado um peixão, embarcado a guindaste. A aventura durou anos a fio, não cessou nem mesmo quando descoberto o maligno tumor. Sem chance de cura, o promotor jubilado aproveitou os estimados seis meses de sobrevida para adiantar o inventário, parcelar a cremação, distribuir as disposições de última vontade e, naturalmente, continuar pescando.

A notícia da morte iminente da figura ilustre espalhou-se pelo vilarejo. Fidélis evitou salamaleques e solenidades alegando pescarias agendadas. Porém, seu genro era prefeito e da derradeira homenagem o paciente terminal não escaparia. Era só questão de escolher entre batizar uma avenida ou escola.

O velho acusador não precisou pensar muito. Via pública e liceu não queria, porque detestaria ter seu nome associado a crimes educacionais e buracos asfálticos. Já que era obrigado a escolher, queria mesmo era ser nome de árvore. E assim foi feita sua vontade, ao pé duma figueira em frente ao mar de 74 quilômetros daquele belo balneário. Anos depois, o mar ficou marrom. Pelo cheiro de esgoto, o povo tinha certeza que era poluição. Para a municipalidade, era excesso de folha, e cortaram todas as árvores da orla. Só uma foi poupada: a que tinha um nome a zelar.

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O Quinto Poder

Coluna assinada pelo Promotor de Justiça da Cidadania, José Luiz Bednarski. Uma abordagem apartidária, com discussão aberta dos assuntos de interesse geral; o amadurecimento paulatino da cidadania, a força da população em diálogo com órgãos independentes representativos, como MP, Defensoria Pública e outras instituições criadas ou fortalecidas a partir daConstituição de 1988.


E-mail do autor: joseluizbednarski@gmail.com
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