Quarta, 01 Dezembro 2021

O conto da ilha desconhecida

O conto da ilha desconhecida

O autor apresenta seu tradicional estilo literário de parágrafos longos e pontuação libertária.  

Alguns textos são especiais e permanecem apreciados por leitores qualificados porque apresentam notável originalidade, bem como variedade e profundidade de sentidos.

É o caso do conto de José Saramago escolhido para análise desta coluna, de linha basicamente narrativa, porém de conteúdo escancaradamente psicanalítico, junguiano mais precisamente.

O autor apresenta seu tradicional estilo literário de parágrafos longos e pontuação libertária (que desengessa os diálogos e dita ao leitor um ritmo de pensamento limítrofe entre as faixas do racional e do inconsciente).

Outra marca registrada de Saramago, tão sorvida pelo patrício contemporâneo Valter Hugo Mãe: tanto no decorrer da trama, como em condutas específicas dos personagens, o escritor abstém-se de considerações deontológicas ou valorações morais expressas em terceira pessoa.

A história parece transcorrer na Idade Média (reis, barco à vela, navegação manual, ponderação da existência de ilha desconhecida), porém o sabor da leitura do conto em questão é atemporal, como dos congêneres de Ítalo Calvino.

O conto mescla elementos de Saramago encontrados em O Evangelho Segundo Jesus Cristo (redação prolixa, subjetivismo conclusivo) e Ensaio Sobre a Cegueira (texto moderno, ritmo narrativo dinâmico, personagens criados a partir de arquétipos).

Dentre vários sentidos que podem ser encontrados no texto, a invocação do pleito ao Rei e a concessão do pedido por Sua autoridade majestática representam a autêntica iniciação e imersão integral do homem na masculinidade.

A plenitude adulta apresenta como elemento literário um objeto de autonomia e arrojo: um barco para ser navegado em alto-mar, de forma inédita pelo personagem, dominando os vetores naturais com sua própria força, representada por leme, mastros e velas.

Porém, o crescimento masculino só encontra patamar ideal na intromissão do elemento feminino, pois ele por conta própria é incapaz de vislumbrar essa necessidade e buscá-lo.

Ela depura o convés de todas as aves (o ninho doravante é do casal) e prepara as costuras, outrora rotas, para o enfunar a dois, tão logo libertado o barco do amor das variadas amarras que o prendem ao cais.

Frase em destaque: "gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar". 

 

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