Raros sorrisinhos
Trata-se, ao meu ver, de longa-metragem que Allen picotou em 6 partes, fingindo entregar a encomenda que o streaming havia lhe pedido.
Com seu viciante dramalhão gago, Woody Allen afirmou em entrevistas ter se arrependido 'do fundo da alma' de ter aceitado o convite da Amazon, em 2015, para que bolasse uma série – falou em 'erro catastrófico'. 'Crise em Seis Cenas', lançado 1 ano depois, não é na verdade daquelas típicas sitcoms americanas, com risadas ao fundo (claque) quando alguma piada sem sal é solta.
Trata-se, ao meu ver, de longa-metragem que Allen picotou em 6 partes, fingindo entregar a encomenda que o streaming havia lhe pedido. Tanto que cada episódio dura cerca de 22-23 minutos que, multiplicados por 6, totalizam duas horas e 15 minutos, arredondando as contas.
O roteiro é o que estamos acostumados. A história se passa na década de 1960. Singer (Allen), sessentão judeu que não tem criatividade a escrever livros, é casado com a psicóloga Kay (Elaine May). A calmaria hipocondríaca dos climas allenianos é alterada quando surge Lennie (Miley Cyrus), jovem revolucionária esquerdista que se refugia na residência do casal porque está escapando da polícia. Vemos confusões e trapalhadas envolvendo o trio. A garota doutrina Kay e Brockman (John Magaro), moço-almofadinha que se apaixona por ela, com abobrinhas sobre comunismo.
A crítica especializada ficou, no geral, em cima do muro. Uns malharam Allen, comparando a obra com garranchos mal-arranjados de estudantes que, ao não estudarem às provas, rabiscam qualquer porcaria na folha para ver se convencem o professor com suas enrolações. Outros consideraram 'Allen preguiçoso', mas com categoria invejável de sempre. Houve quem elogiasse a atuação de Elaine, velha companheira do cineasta nos palcos do teatro nos anos 1950-60, onde iniciaram suas carreiras.
Eu, particularmente, enxerguei mais qualidades do que defeitos. Posso ser suspeito, por ser fã, todavia dei alguns (raros) sorrisinhos em determinadas sequências: na de Singer pulando de um prédio ao outro, e quando ele vai ao orelhão deixar mala cheia de dinheiro e se depara com uma mulher desconfiada e um policial.
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