Prazo ampliado, permanência de chefe de gabinete e bastidores sem resposta clara mantêm caso em evidência.
A Comissão de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara Municipal de Jacareí decidiu prorrogar por mais 40 dias o prazo para conclusão da investigação envolvendo o vereador Marcelo Dantas (Podemos) e seu chefe de gabinete, Robson Antônio Bispo. O pedido de extensão foi formalizado em 18 de março deste ano e tem como base, segundo a própria Comissão, "a necessidade de garantir o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa".
Na prática, a decisão adia a apresentação do relatório final e prolonga um caso que já vinha sendo acompanhado de perto nos bastidores políticos e pela opinião pública.
A investigação tem como base reportagens publicadas pelo Diário de Jacareí em 22 e 29 de novembro do ano passado e formalmente encaminhada à Comissão de Ética no dia 1º de dezembro.
A denúncia aponta o suposto uso de um carro oficial para atividades particulares, de caráter comercial. O vereador Marcelo Dantas (Podemos) e seu chefe de gabinete Robson Antônio Bispo estão no centro dessa denúncia. O fato ocorreu no dia 24 de julho de 2025, e chegou ao conhecimento do DJ por meio de fotos e vídeos enviados pelo empresário Regis Akhenaton Fernandes de Oliveira, proprietário da empresa Levita Drones que, inclusive, já foi ouvido em duas ocasiões pela própria Comissão.
No material encaminhado para análise preliminar da Câmara, estão elencadas imagens do chefe de gabinete, condutor do veículo oficial em questão no mesmo local, dia e hora mencionados nas reportagens; e do vereador Marcelo Dantas e proprietários de um dos três estabelecimentos comerciais visitados entre os dias 24 e 26 de julho de 2025.
Todo o material captado serviu como base para produção de um vídeo e veiculação com fins comerciais na página pessoal intitulada 'Marcelo Dantas Jacareí TV' na rede social Instagram no dia 26 de julho de 2025.
JUSTIFICATIVA
A justificativa apresentada pela Comissão de Ética da Câmara para ampliar o prazo das investigações por mais 40 dias se apoia em fundamentos previstos na Lei Orgânica do Município e no Regimento Interno da Casa.
Ainda assim, a prorrogação ocorre em um contexto de cobrança crescente por celeridade e uniformidade de critérios nas apurações conduzidas pelo Legislativo. Recentemente, a Câmara adotou uma postura significativamente mais célere ao analisar e punir o vereador Gabriel Belém (PSB), em um processo que avançou com base em denúncias, registros visuais e tramitação mais rápida.
No dia seguinte ao julgamento do caso em Plenário – realizado no último dia 8 -, e que teve a aprovação pela suspensão do mandato do vereador por 10 votos a 2, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) concedeu uma medida liminar que suspende a decisão da Câmara.
Chefe de gabinete permanece no cargo,
sem explicação da Câmara sobre rotina
Outro ponto que amplia o desgaste em torno do caso Marcelo Dantas é a situação do chefe de gabinete Robson Bispo. Questionada oficialmente pelo Diário de Jacareí, a Câmara informou que o servidor permanece no cargo, não foi exonerado e também não está em período de férias.
A Casa ressaltou que, conforme a legislação, "cargos comissionados são regidos pela relação de confiança e que a gestão da rotina e das atividades do gabinete é de responsabilidade exclusiva do vereador", enfatiza.
Apesar disso, não houve esclarecimento direto sobre relatos de ausência do servidor em sessões legislativas recentes e em atividades cotidianas do gabinete.
POSSÍVEL TROCA
Nos bastidores, circula a informação de que o vereador já teria articulado a substituição de seu chefe de gabinete, com a indicação de um nome ligado a um partido político de direita em São José dos Campos para a função.
Segundo relatos, o nome já estaria sendo apresentado informalmente a outros parlamentares e servidores. Procurada, a Câmara não confirmou nem desmentiu a informação, afirmando apenas que "não se manifesta sobre questões da esfera política dos mandatos, limitando-se a temas administrativos".
A posição institucional evita interferência direta nos gabinetes, mas também mantém sem resposta um movimento que, se confirmado, pode indicar tentativa de reorganização interna diante da repercussão do caso.
Pressão por coerência marca novo momento
Com a prorrogação do prazo, a manutenção do chefe de gabinete do vereador Marcelo Dantas no cargo e a ausência de respostas mais objetivas sobre a situação, o caso entra em uma nova fase - marcada menos por fatos novos e mais pela forma como a investigação é conduzida.
O cenário reforça a cobrança por coerência da Comissão de Ética, especialmente diante de um episódio recente envolvendo o vereador de oposição Gabriel Belém (PSB) em que o Legislativo adotou medidas mais rápidas com base em denúncias, imagens e indícios.
Agora, o desafio passa a ser equilibrar o rigor processual - necessário e legítimo - com a expectativa de respostas em tempo razoável. A condução do caso, mais do que o desfecho em si, passa a ser determinante para a credibilidade da própria Câmara.
Enquanto isso, o processo segue sem conclusão, e a tendência é que o tema permaneça no centro do debate político local nas próximas semanas.