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Publicado em 16/03/2018 às 15h43
Tempero Final


JOSÉ LUIZ BEDNARSKI

Sem mais delongas, como a chuvarada de março que castigou a cidade, fui subitamente incisivo na acusação de Tempero Baiano. Afinal, sem merenda, tevê ligada, DVD infantil e micro-ondas para esquentar mamadeiras e papinhas, as creches furtadas seriam estruturalmente inservíveis aos bebês.

Na frente do próprio réu, precisei falar verdades que há muito entalavam minha garganta cidadã. Tachei de covarde e ignominioso o fato em julgamento e pugnei pela mais severa das reprimendas, ainda mais porque a reincidência específica demonstrava que aquele cristão não era farinha de se fazer hóstia.

Ao clamar pela acentuada perversidade social desses ladrões de escolas e hospitais públicos (que não têm o mesmo ânimo para tais estripulias nos palácios dos políticos corruptos), meu soco na mesa provocou um solavanco no computador portátil da defensoria pública e assustou o policial militar de prontidão no canto da sala.

A verve acusatória cresceu ainda mais quando expus a extensão dos prejuízos causados (e que até hoje aguardam reparos). Além de arrombar a janela do andar superior, a calha do telhado foi toda arrancada porque Tempero se apoiou nos canos externos para escalar o prédio.

Todas as circunstâncias do crime devem ser levadas em consideração na dosagem da pena e minha indignação contagiou o impoluto juiz de direito, que, embora recém-chegado a Jacareí, já conquistou a admiração dos bons pela vocação demonstrada às causas sociais e valores republicanos.

Ante o prenúncio de tempestade, o impertérrito, intimorato e mavórtico defensor público tentou uma reação. Acrescentou aos memoriais escritos considerações orais de última hora, mas era tarde. O representante do ministério público quebrava um jejum pessoal de 18 anos sem pena máxima para tentativas de furto. Ao malfeitor, um ano e meio de cadeia em regime integralmente fechado.

Explicou-me o conterrâneo Zé Franklin o significado do misterioso apelido Tempero Baiano. É normalmente conferido às nativas de exuberante beleza, comportamento expansivo e intensidade energética. Pasmei.

Encontrei doutor Nelson no mercadinho Três Amigos. Desconhece o Tempero nocivo, deplorou o ocorrido, parabenizou-me e transmitiu a sombria previsão da esfera espiritual: muitas tragédias assolarão a Humanidade, antes que o mundo finalmente se purifique.

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O Quinto Poder

Coluna assinada pelo Promotor de Justiça da Cidadania, José Luiz Bednarski. Uma abordagem apartidária, com discussão aberta dos assuntos de interesse geral; o amadurecimento paulatino da cidadania, a força da população em diálogo com órgãos independentes representativos, como MP, Defensoria Pública e outras instituições criadas ou fortalecidas a partir daConstituição de 1988.


E-mail do autor: joseluizbednarski@gmail.com
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