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Publicado em 25/11/2013 às 10h39
Onde queremos chegar?


RODRIGO ROMERO

Por estes dias, o crítico de cinema Celso Sabadin, ao comentar o filme 'Serra Pelada' (2013), escreveu: 'Não temos ideia do quanto as telenovelas prejudicam a dramaturgia audiovisual brasileira. Talhadas a agradar à maior quantidade possível de pessoas, autodescritivas, autoreferenciais e muito mais auditivas que visuais, as novelas são feitas a um público que tem hábito mais de escutá-las que propriamente vê-las, como as rádionovelas. Daí a quantidade de cenas resolvidas através da palavra oral em detrimento à cognição da imagem, resultando em uma dramaturgia pobre. O problema é que esta forma oral de se criar imagens tem contaminado, muito, a produção cinematográfica brasileira.'

Isto ocorre porque as emissoras de TV entenderam que o formato 'obrigatório' é da rapidez, ou seja, geralmente pessoas assistem a TV ao mesmo tempo em que almoçam, jantam, leem, conversam etc. Assim, muitas vezes estão somente com os ouvidos (ou nem eles) atentos à TV, sem prestar atenção nas imagens. Daí o jeito é 'apelar' aos diálogos longos, explicativos, monótonos e explicativos. Agora não me lembro quem, mas outra pessoa disse que o cinema de hoje parece aulas aos pequenininhos, com o sistema tatibitate à flor da pele, o doce na boca da criança, para que o espectador não tenha de forçar muito seu cérebro para pensar, refletir, filosofar, questionar, indagar, duvidar e desmistificar.

No ótimo livro 'Cartas ao Mundo', organizado por Ivana Bentes, acerca das correspondências do cineasta Glauber Rocha, notamos desde cedo (18, 19, 20 anos) a angústia do autor de 'A Idade da Terra' (1980) em limar a influência do imperialismo norte-americano do Brasil. Glauber preocupava-se em domar o público no bom sentido, ou seja, fazê-lo acreditar num cinema bem feito, onde o que importava era a imagem na telona. 'Cinema é um barato audiovisual, não tem nada que explicar', ele costumava vociferar. É claro! Juro não entender até hoje a venda do que quer que seja, incluindo-se aí os sacos de pipoca, nas salas do cinema. Atenho-me às pipocas. Não há nada mais insuportável do que entrar para ver um filme e ver aquele monte de gente com a sua porção extragrande dos milhos estourados- umas até com manteiga, diga-se - e, para acompanhar, sucos, refrigerantes, água, balas, pão de queijo, cachorro-quente, o diabo. Existe um cinema em São Paulo que funciona como se fosse um restaurante cinco estrelas, com garçons, afins! Meu Cristo, onde se encaixa o filme propriamente dito nisto tudo? E já vi a programação destes lugares: são exibidos longas dos tipos que citei antes, os blockbusters, onde o mais interessante é a comida e bebida; o filme é, como disse Parreira sobre o gol no futebol, 'é só o detalhe'. Onde é que nós estamos, afinal? Ninguém reclama, exceto os de sempre...

O cinema caminha em igual trilha das locadoras de vídeo, que atualmente, para sobreviverem às piratarias da vida etc e tal se prostituem vendendo revistas, chocolates, pipocas de microondas (!) e brinquedos? Será que daqui a algum tempo veremos cinemas no estilo 'Posto Ipiranga', com tudo e mais um pouco? Custo a crer que locais como o Reserva Cultural, da Avenida Paulista, estão quase na moita, fingindo-se de mortos para não chamarem a atenção dessas grandes redes. Deixo aqui, meus leitores, esta bacia de sentimentos contra esta modernidade acéfala e indigente, a dos cinemas com o gosto perto do ralo. As mostras da sétima artes precisam se multiplicar, quintuplicar, e exibir para as gerações de hoje e às próximas os verdadeiros poemas em imagens, como os de Glauber, Bergman, C. Chaplin, Buster Keaton, DeSica, Wenders etc. Caso contrário corremos o risco de num curto período de tempo estes jovens, se perguntados sobre estas lendas, ficarem pasmos e não saberem responder. E isto tem sido cada vez mais frequente, infelizmente. Onde queremos chegar?  As revistas de cultura se acabaram, as resenhas de filmes (as com qualidade) estão minguando e determinadas pessoas se consideram mais do que realmente são. Abaixo às pipocas, aos blockbusters, às comédias pobres e às excessivas explicações. Cinema é o olho na tela, e não nos copos de suco de uva. Acordem, por favor!

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Rodrigo Romero é jornalista desde 2001. Passou por Diário de Jacareí, Diário de Mogi e assessoria de imprensa da Prefeitura Municipal de Jacareí. Em 2008 foi para a TV Câmara Jacareí, onde até hoje atua como apresentador e repórter. Escreve há quase dez anos, semanalmente, a coluna 'Coisas de Cinema' no Diário de Jacareí.


E-mail do autor: rodrigoromeropl@ig.com.br
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