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Publicado em 19/05/2014 às 17h01
‘Nebraska’ nos ensina


RODRIGO ROMERO

A admiração por Alexander Payne é antiga. São três filmes quase em sequência que mostram a capacidade do diretor e produtor de narrar dramas com serenidade e paixão simultaneamente. São dele 'As Confissões de Schmidt' (2002, e Jack Nicholson no papel principal), 'Sideways: Entre umas e Outras' (2004) e 'Os Descendentes' (2011). Surpreendi-me com 'Nebraska' (2013) ter sido rodado em intervalo mais curto que os demais. Autores como Payne, creio, necessitam de tempo para elaborar a ideia na cuca. Os longas-metragens têm características bastante evidentes. A fotografia, por exemplo, é um ponto no qual o cineasta bate na tecla do brilho. Esmera-se em detalhes de cores e os espasmos das figuras refletem na filmagem. As cenas, sejam elas estáticas ou nos movimentos lentos de câmera e lente, também são estilos próprios de Payne nestes quatro trabalhos. O modo de 'filme de estrada', conhecido como 'road movie', cujo mais famoso, não dele, seja 'Sem Destino' (1969, também com o J. Nicholson no elenco), está fixado nas tramas de Alexander Payne. Porém, 'Nebraska', a meu ver, tem o cheiro dos clássicos. Rodado propositalmente em preto-e-branco, possui ingredientes de comoção, como o reencontro forçado entre pai e filho. As interpretações de Bruce Dern (Woody, o pai) e Will Forte (David, o filho) são magníficas e seduzem o espectador logo nas cenas iniciais. Um prato cheio.

O roteiro do estreante Bob Nelson é simples. Por isto, bom. Com idade avançada, Woody faz coisas meio absurdas. Ele recebe propaganda duma revista (percebe-se que é a 'Seleções'). Nela está a bomba: Woody acaba de ganhar um milhão de dólares numa promoção e precisa ir buscar a grana. Assim, resolve ir a pé (!) à cidade de Lincoln, no estado do Nebraska. David nota a insanidade e, com a boa vontade de Jó, o da paciência enorme, resolve levar o pai de carro até lá. Neste ínterim, Woody sofre um acidente e necessita permanecer uns dias na casa de parentes - estes nada amistosos, diga-se. Aos poucos, o velhinho conta aos mais chegados que está prestes a se tornar milionário, para total desespero do filho. A enrascada só aumenta porque a esposa de Woody, a temperamental Kate (June Squibb, igualmente sensacional no papel), não tem a benevolência de David e critica e humilha o seu marido. A matraca não cessa e a andança da viagem peregrina segue. Há aí reencontros triunfantes, discussões acerca do passado familiar, as descobertas constrangedoras, enfim, a gama duma imensa teia de retalhos que, passo a passo, é costurada. E tudo sob a batuta visível, doce e tenra de A. Payne.

Dern prende-nos por sua inigualável capacidade de ficar estupefato. As partes cômicas da fita pertencem a ele, ninguém mais. Na pele de Woody, o ator encarna a criança com barbas brancas e os cabelos de mesma tinta, bagunçados pela força dos ventos e as geadas das estradas. Payne chegou a pensar em Gene Hackman e (de novo) Nicholson pra dar vida ao idoso, mas preferiu, acertadamente, Dern. Indicado com merecimento ao Oscar 2014 por esta realização, o artista tem carreira extensa e parcerias com mestres como Alfred Hitchcock ('Marnie: Confissões de uma Ladra', 64), Bob Rafelson ('O Dia dos Loucos', 1972) e Francis Ford Coppola ('O Grande Gatsby, 1974 - Coppola roteirizou). O caso é que nestas filmagens as personagens de Dern eram pequenas, secundárias, quase invisíveis. Já em 'Nebraska', não. O ator fez, e não tenho dúvidas, o papel da vida ali. Sabia disto e emocionou-nos.

Pensei em meu pai ao ver 'Nebraska'. Ele está longe de ter o comportamento de Woody, mas a velhice me toca. Recentemente, li um artigo na revista 'piauí'. Era um relato de um filho e de como era ter o cotidiano ao lado do pai esquizofrênico. Não se trata de loucura, todavia a doença encorpa e não há o que fazer. 'Nebraska' e o texto de 'piauí' nos ensinam demais, em um mundo hoje dominado pela brutalidade e ignorância. O longa faz com que Payne se torne um cineasta. Tanto tecnicamente como na parte psicológica, a fita tem responsabilidade. Agarra-a de maneira sentimental e lacrimosa.

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Rodrigo Romero é jornalista desde 2001. Passou por Diário de Jacareí, Diário de Mogi e assessoria de imprensa da Prefeitura Municipal de Jacareí. Em 2008 foi para a TV Câmara Jacareí, onde até hoje atua como apresentador e repórter. Escreve há quase dez anos, semanalmente, a coluna 'Coisas de Cinema' no Diário de Jacareí.


E-mail do autor: rodrigoromeropl@ig.com.br
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