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Publicado em 09/03/2018 às 14h47
Julgamento do Tempero


JOSÉ LUIZ BEDNARSKI

A desmaterialização dos bens de consumo é constatada em qualquer passeio a pé, quando cruzamos com pessoas aparentemente a falar sozinhas, mas que, na verdade, estão ao celular com modernos fones de ouvido 'wireless'.

Esse fenômeno do desaparecimento do fio nos aparelhos eletrônicos contagiou até mesmo nichos mais conservadores da sociedade, como as salas de audiências judiciais. Antes, os debates orais eram gravados com microfones. Atualmente, o poderoso computador da escrevente do juiz capta com nitidez todo o som ambiente.

Habituado a tantos anos de magistério e tribuna com microfone à mão, confesso que a perda do referencial e a sensação de discursar desconectado no espaço me deixam ainda desconfortável e um pouco cismado para adequada alocução. O detalhe foi fundamental para o sucesso da acusação no caso do famigerado Tempero Baiano, que comecei a narrar semana passada.

Pedi sessenta segundos de preparação. O impoluto magistrado deferiu e aguardava pacientemente a deflagração do discurso, enquanto o impertérrito, intimorato e mavórtico defensor público sacou do bolso do colete um robusto cronômetro analógico prateado, para se certificar rigorosamente que eu não excederia o diminuto prazo fixado.

O sexto sentido de promotor experimentado impeliu-me à prévia consulta ao setor de inteligência avançada do Ministério Público. O coordenador regional não pode ter sua identidade revelada, mas responde pelo codinome composto David Webster, pleno de significado por trabalhar incessantemente na rede mundial de computadores em combate ao gigante Golias do crime organizado.

A pesquisa aos 45 do segundo tempo revelou que Tempero Baiano recentemente se especializara em furtos a creches municipais. Além de tentar levar da escolinha atrás do ginásio os aparelhos eletrônicos, em outra unidade ele subtraíra todos os víveres estocados na dispensa e os alunos só não ficaram sem merenda nas semanas seguintes porque trouxeram de casa a lancheira com macarrão instantâneo, salsicha e suco de pozinho.

Referindo-se indevidamente ao inigualável prestígio social do benemérito doutor Nelson, assentado no banco dos réus estava um verdadeiro lobo em pele de cordeiro. A deusa Themis precisou retirar a venda, pousar a balança no soalho e pegar da espada com as duas mãos.

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Coluna assinada pelo Promotor de Justiça da Cidadania, José Luiz Bednarski. Uma abordagem apartidária, com discussão aberta dos assuntos de interesse geral; o amadurecimento paulatino da cidadania, a força da população em diálogo com órgãos independentes representativos, como MP, Defensoria Pública e outras instituições criadas ou fortalecidas a partir daConstituição de 1988.


E-mail do autor: joseluizbednarski@gmail.com
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