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Publicado em 08/09/2014 às 09h59
Carta e Francis


RODRIGO ROMERO

Sugiro a mudança do Dia (ou dias) do Jornalista - 29 de janeiro e 7 de abril - para a primeira semana de setembro. A justifica é válida e tema da coluna de hoje: os aniversários de dois marcantes jornalistas brasileiros - Paulo Francis (hoje, 2/9) e Mino Carta (amanhã, 3/9). Ao contrário do que a maioria imagina, ambos têm muitas linhas em comum (usarei verbos no presente -P.Francis morreu em 1997). A dupla tem admiração por música clássica, teatro igual e na literatura, idem. A formação também coincide. Começaram suas vidas públicas no rumo da esquerda franca e tradicional. O mais puro marxismo estava encravado neles e não havia jeito de desmentir. Décadas depois, Paulo Francis declarou: 'Passei de criança (comunista) a adulto (reacionário)'. Com Mino, não. Até hoje, e isto se vê em seus escritos na revista Carta Capital, o jornalista conserva em formol a veia esquerdista e não há jeito de fazê-lo abrir mão disso. Recorrentes expressões dele em seus textos, 'casa grande e senzala', 'mídia nativa', apontam para o caminho vermelho da história. Já Francis morreu taxado de direitista.

O ex-comentarista do 'Jornal da Globo' e do programa 'Manhattan Conection' se foi por não suportar a pressão causada por denúncia sua. Ao informar que dirigentes altos da Petrobrás tinham a conta na Suíça, estes processaram o gutemberguiano. Pior: fizeram isto nos Estados Unidos, sede do 'Manhattan', 'onde espectadores brasileiros souberam', segundo as vítimas. Francis se apavorou. As ajudas não vieram. Fernando Henrique Cardoso, presidente na época, foi chamado a auxiliá-lo. Não pôde fazer nada. Semanas após a acusação, um infarto mal tratado o matou, aos 66 anos. Como lidar com isto? O tipo de jornalismo desenvolvido por ele está, digamos, fora de moda, infelizmente. Ter a opinião firme, polêmica, recheada de adjetivos e referências culturais, virou fantasia de carnaval. Por mais que tenha tentado, Diogo Mainardi nem sequer chegou perto de Francis em seu espaço na 'Veja' e hoje o 'substitui' na atração da Globo News. O jornalista era único. Entendia de tudo e preferia sua vida em Nova Iorque a São Paulo. Os textos são valiosos. Livros como 'Trinta Anos Esta Noite', idem.

Mino Carta também é afeito a 'causar'. Fundou revistas como própria 'Veja', 'Isto É', 'Quatro Rodas' e 'Carta Capital', além do 'Jornal da Tarde', retirado das bancas algum tempo atrás. Em 2012 atiçou a imprensa ao chamar Roberto Civita, o dono da Editora Abril de 'Rupert Murdoch' brasileiro, em referência ao magnata norte-americano da comunicação acusado em 2011 de usar prática ilegal de grampos telefônicos para garimpar notícias 'exclusivas'. Com Civita, segundo Carta, ocorria igual armação, com o repórter Policarpo Júnior, de 'Veja', mantendo as ligações telefônicas com Carlinhos Cachoeira, bicheiro incriminado por parcerias com o crime organizado. Foi a chance de Mino vingar-se de Civita, aquele que 'deu a cabeça' do jornalista aos militares, durante os Anos de Chumbo. E ele, Mino, conseguiu o que queria: não demorou para outros veículos da imprensa revidarem e tomarem o partido do empresário da Abril. O jornal 'O Globo', por exemplo, fez o editorial 'Roberto Civita não é Rupert Murdoch'. O editor-chefe de 'Carta Capital' jactou-se. As cócegas no ego de um octogenário.

No documentário 'Caro Francis' (2010), de Nelson Hoineff, já tema deste espaço meses atrás, Ruy Castro, famoso biógrafo, lembrou duma passagem: "Certa vez, ao terminar um texto, o Francis arrancou a folha da máquina e brandiu: '58 linhas e nenhum advérbio de modo'". Pode-se afirmar tal coisa acerca dos textos de Mino. O refinamento e o esmero fazem parte e contribuem pras obras dos dois jornalistas. Alguém precisa fazer um documentário sobre o italiano de Gênova, de 81 primaveras completadas. Não o vemos mais por aí porque ao longo do tempo cultivou e semeou inimigos e estas pessoas querem vê-lo de longe. E tem mais: todos têm de estar preparados para conhecê-lo. Mino e a taça de vinho à mesa, com a famigerada Olivetti ao fundo. Carta e Francis, amigos distante de ideias. Hoje, ambiente do jornalismo engajado de modo falso, onde todos se escondem, são bons exemplos.

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Rodrigo Romero é jornalista desde 2001. Passou por Diário de Jacareí, Diário de Mogi e assessoria de imprensa da Prefeitura Municipal de Jacareí. Em 2008 foi para a TV Câmara Jacareí, onde até hoje atua como apresentador e repórter. Escreve há quase dez anos, semanalmente, a coluna 'Coisas de Cinema' no Diário de Jacareí.


E-mail do autor: rodrigoromeropl@ig.com.br
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