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Publicado em 02/12/2013 às 17h07
Carlitos Repórter


RODRIGO ROMERO

Cem anos atrás, a 30 de novembro de 1913, o set de filmagem na Inglaterra seria palco de um acontecimento histórico. O diretor Henry Lehrman recebeu para filmar um estreante. Aos 24 anos, o moço debutava na área e logo no primeiro trabalho seria o protagonista. Interpretaria Swindler num curta-metragem de 13 minutos. Era Charles Chaplin. Ainda sem bigodinho, bengala e o chapéu-coco, que lhe renderiam a mística da eternidade, também sem o apelido Carlitos por aqui, Chaplin iniciou o seu trabalho. A pantomima o faria famoso mundo afora. Foi ela o principal ponto da história. Nota-se os malabarismos corporais, trejeitos cômicos e o rosto de feições atrapalhadas, o mau humor por a confusão existir. Chamado no Brasil de 'Carlitos Repórter' ('Making a Living' no original, 'Ganhando a Vida' na tradução livre), a fita caminhou aos cinemas um ano depois, 1914. O passo inicial do maior ator de nosso tempo não o marcou tanto. O 30 de novembro passou e ninguém fez sequer um gesto e apelo. Em branco, a data deveria ser considerada feriado internacional, ou 'Dia do Cinema', mais até importante do que a inauguração deste, em 28 de dezembro de 1895, pelos irmãos Lumière. Todas as faculdades do setor teriam de agendar o dia na folhinha e anualmente fazer 'Mostra Charles Chaplin'.

Lembram-se muito de Carlitos no Natal, pois numa madrugada de 25 de dezembro, Chaplin recolheu-se em seu quarto e morreu enquanto dormia. Neste serão completados 36 anos da partida. O estilo fez inveja a Chico Anysio. Ao ser entrevistado pelo jornalista Roberto D'Ávila, comentou: 'A morte de Chaplin foi linda, e ele mereceu.' O cineasta tinha 88 anos e há uns dois ou três estava com esquecimentos, fraquezas, distúrbios. Tinha projetos para um novo filme, e ao não concretizar mais o roteiro, entrou para a história da sétima arte, e colecionou admiradores, que se tornaram devotos, ou seguidores, fiéis à religião chapliniana. Mas 'Making a Living' também é histórico porque demonstra a face infantil de C. Chaplin em sua primeira vez. As gags falaram presente e logo de cara amealhou o fã clube. Ou nem tanto. A fita rodada em 1913 tinha como estúdio empresa Keystone Film Company, dirigida por Mack Sennett. O ator teve dificuldades em se adaptar à linguagem as câmeras. Sennett o vira numa de suas apresentações nos circos. Após ver Charles Chaplin em cena, pensou ter cometido o grave erro, pois o futuro Carlitos não havia 'compreendido' a maneira correta de filmar. Quem deu a segunda chance a Chaplin foi a atriz e diretora Mabel Normand. E incomodado em ser dirigido por uma mulher, C. Chaplin discutia frequentemente com ela e só não desistiu por medo de ser demitido.

Este acontecimento um tanto machista não entortou a qualidade dos produtos que estavam a ser lançados, estes trabalhos pioneiros deles todos fizeram enorme estardalhaço. Especialmente caiu sob o moço iniciante o sucesso de público e crítica. É sempre bom lembrar que nos primeiros anos do século passado fazer, realizar longas-metragens, com uma ou mais horas de duração era tarefa quase hercúlea, para não dizer impossível. A tecnologia era bastante precária e o orçamento, curtíssimo. As formas mambembes de se montar e produzir, assim como filmar, eram considerados acontecimentos autênticos e grandiosos. Chaplin tinha na cabeça a carreira inteira. É claro que ainda não estavam na cachola blockeds do calibre de 'O Grande Ditador' (40), 'Tempos Modernos' (36), 'Em Busca do Ouro' (1928) e 'O garoto' (1921), mas a ideia original estava enraizada. A vida difícil que teve, com sua mãe doente e os problemas com os infinitos casamentos, contribuíram pra o brilho das atuações. Chaplin possuía a melancolia nos olhos e cada espaço de sentimento se preenchia com o vigor de saber viver e não espernear nem reclamar das confusões do cotidiano. 'Carlitos Repórter' virou obra rara de ser vista (está no YouTube e naquela coleção lançada pela Folha de São Paulo ano passado) e, ao todo, é o espelho do cinema. Charles Chaplin virou sinônimo de perseverança, certeza, e assim sempre será.

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Rodrigo Romero é jornalista desde 2001. Passou por Diário de Jacareí, Diário de Mogi e assessoria de imprensa da Prefeitura Municipal de Jacareí. Em 2008 foi para a TV Câmara Jacareí, onde até hoje atua como apresentador e repórter. Escreve há quase dez anos, semanalmente, a coluna 'Coisas de Cinema' no Diário de Jacareí.


E-mail do autor: rodrigoromeropl@ig.com.br
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