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Publicado em 07/07/2014 às 10h08
A ida e a volta


RODRIGO ROMERO

O Canal Brasil, alguns meses atrás, exibiu na programação o filme 'Joelma 23º Andar' (1980) e lá estava Beth Goulart e seus 19 anos. Declaradamente inspirada nos escritos de Chico Xavier, trata da tragédia da década de 1970, que vitimou inúmeras pessoas. Vi-o com curiosidade e apreensão. As tramas desta linha espírita me chamam a atenção. Em 2010, 2011, o Brasil viveu uma onda enorme de longas-metragens que abordavam a vida após a morte. Começou com 'Chico Xavier', 'Nosso Lar' e 'Bezerra de Menezes' enfestaram as salas. De qualidades modestas, até bem feitas em determinadas sequências, os blockeds levaram milhões de espectadores às telonas, independentemente de eles serem da religião ou não. Por estes dias entrou em cartaz, mas de forma tímida, mais um: 'Causa e Efeito'.

Dirigido por André Marouço, também roteirista e produtor, 'Causa e Efeito' aborda a teoria de Allan Kardec, ícone do espiritismo. Nela, todo o ato da vida moral do homem corresponde a uma reação semelhante a ele. Assim, se cria algo parecido a um 'motivo justo' e 'finalidade proveitosa' aos acontecimentos com que se depara o ser humano, inclusive sofrimento. Então, temos o protagonista Paulo (Matheus Prestes). Com a família estruturada, de repente tudo se altera quando um motorista bêbado atropela e mata o filho. A esposa também é atingida, mas morre no hospital por ingerir uns remédios pouco testados na indústria farmacêutica. Revoltado, alia-se a Gustavo, deputado corrupto interpretado por Henri Pagnoncelli. Começa a fazer serviços sujos, torna-se um matador de aluguel.

Porém, quando se depara com Madalena (Naruna Costa), amante de Gustavo, Paulo precisa repensar seus atos. É aí que a parte espírita da obra entra. Dá-se pelo tio (Luiz Serra, ator de ótimo gabarito que deveria ser melhor aproveitado em mais papéis), que o abriga numa fazenda da família. Paulo, ex-policial, tem visões da esposa morta, Carolina (Maritta Cury), e o desejo de vingança sobre Gerson (Maurycio Madruga), o homem que a atropelou e a seu filho e se transformou em defensor da abstemia e fundador de diversas obras sociais. Mas, lembre-se, existe a causa e o efeito. As pessoas, segundo a tese, necessitam esbarrar-se durante a vida por conta de episódios de questões passadas. Neste quebra-cabeça indefensável, tudo ali se encaixa perfeitamente e este drama satisfaz o público.

'Causa e Efeito' é quase amador. Não tem atores da TV Globo e tampouco conta com fortuna da Globo Filmes. Ainda bem. Filmado em poucos dias e de recursos esparsos, e de pretensões nada especiais, senão levar a palavra religiosa ao espectador (o tio espírita tem dois amigos: o padre, feito por Henrique Taubaté Lisboa, e o evangélico, papel de Haroldo Serra). Marouço usa o tatibitate para explicar de modo praticamente infantil o universo kardecista. Consegue com êxito. Rosi Campos tem participação especial no filme, na cena dita 'reveladora', onde, durante uma sessão espírita, algumas cenas são explicadas. Alcançar o amor, a paz e a iluminação é o objetivo dos personagens. Para tanto, têm de usufruir de tropeços, obstáculos, iras, paixões, dúvidas. Paulo vai se confessar, por exemplo.

O lado espírita do cinema nacional tem se sobressaído ao católico. Os questionáveis 'Maria: Mãe do Filho de Deus' (2003), 'Aparecida: O Milagre' (2010) deixaram bastante a desejar. Claro, isto nada tem a ver com preferências de 'A', de 'B' ou de 'C'. Não significa tender o texto ao catolicismo ou ao evangelho, até ao espiritismo. Analiso aqui o cinema, a produção. E nisto 'Causa e Efeito' cumpre a tarefa bem. Ao escalar o elenco com atores 'desconhecidos' faz com que o longa se torne bem mais uniforme e coeso. Não existe nele o holofote virado à estrela global ou ao galã da novela que veio pra filmar apenas. Há, sim, profissionais comprometidos com a boa realização e o bom encaminhamento do filme. O resultado final convence, mesmo com derrapadas aqui e ali em interpretações fracas ou desajeitadas. Vale a pena assistir a 'Causa e Efeito'... Pelo menos não vemos os 'figurões' de sempre.

 
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Rodrigo Romero é jornalista desde 2001. Passou por Diário de Jacareí, Diário de Mogi e assessoria de imprensa da Prefeitura Municipal de Jacareí. Em 2008 foi para a TV Câmara Jacareí, onde até hoje atua como apresentador e repórter. Escreve há quase dez anos, semanalmente, a coluna 'Coisas de Cinema' no Diário de Jacareí.


E-mail do autor: rodrigoromeropl@ig.com.br
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