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Publicado em 06/10/2017 às 14h49
Como fazer um filme estupendo


RODRIGO ROMERO

Nova Iorque, 1938. Francis, morador de rua, perambula pela cidade. Roupas rasgadas e sujas, barba a fazer, chapéu velho e a desesperança no olhar: assim é o seu dia a dia há mais de duas décadas. Seu encontro com outros mendigos é regado a piadas tolas e a aspiração de que pelo menos algo de bom ocorra a alguém dali. Francis procura Helen desesperadamente pelas ruas.

Por onde andará? Meteu-se noutra confusão, será? A moça também mora nas ruas e vive de canto em canto sem ambições ou anseios. Ambos têm sombrios passados e escondê-los é tarefa inglória. A vida se encarregou de fazer com que a dupla os carreguem eternamente em seus respectivos lombos. Jack Nicholson é Francis e Meryl Streep, Helen. Eis o resumo de ‘Ironweed’ (1987), quinto longa-metragem de ficção de Hector Babenco.

O personagem de Nicholson tem de conviver com a tragédia de ter derrubado sem querer e matado o seu filho Gerald, ainda bebê. A de Streep foi uma pianista e cantora de retumbante sucesso anos atrás, mas a bebida sugou tudo o que ela possuía. ‘Ironweed’ reforma o olhar do ser humano a si mesmo, a compaixão e a crueza de tratamento entre pessoas que buscam ‘só’ acordar no dia seguinte, quando muito.

Um Babenco autêntico, absoluto. Em 1997, num programa chamado ‘Estúdio Brasil’, o diretor falou sobre este trabalho: ‘O Nicholson tentava mudar minhas indicações, era terrível. Já a Meryl foi um doce, ficou minha amiga’. É impressionante o simbolismo da obra e o funcionamento e entrega dos profissionais.

A carga emocional passada pelo casal protagonista inflama-nos a refletir o papel da memória em nossas vidas. Ou como um ato de não-soberania investe na trajetória de quem somos ou desejamos ser. Tanto Francis como Helen sonham acordados, se lembram de períodos nos quais eram facilitadores da própria existência. Ele nas greves, envolvido em mortes – e os defuntos surgem para amansá-lo, domá-lo.

Ela, os seus feitos como artista, e o aplauso se mistura com o lixo e os copos de uísque e solidão. A amargura fica instalada neles dois. Não à toa, Jack e Meryl figuraram entre os finalistas do Oscar. O peso de saber o que está fazendo é limítrofe. E o cineasta metade tango metade samba, Babenco, construiu, baseado em livro de William Kennedy (assina o roteiro também), uma fita sem precedentes. Os trabalhos de Babenco são isso: atrocidade mesclada com cordialidade.

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Rodrigo Romero é jornalista desde 2001. Passou por Diário de Jacareí, Diário de Mogi e assessoria de imprensa da Prefeitura Municipal de Jacareí. Em 2008 foi para a TV Câmara Jacareí, onde até hoje atua como apresentador e repórter. Escreve há quase dez anos, semanalmente, a coluna 'Coisas de Cinema' no Diário de Jacareí.


E-mail do autor: rodrigoromeropl@ig.com.br
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